Brasileira é a primeira a receber tratamento injetável ultralongo contra o HIV
Estudo clínico global avalia a segurança e a eficácia de injeções de antirretrovirais aplicadas a cada quatro meses.
Uma mulher trans de 37 anos tornou-se a primeira pessoa no Brasil a receber doses experimentais de um tratamento de ultralonga duração para o HIV, com aplicações previstas a cada quatro meses. O procedimento marca o início da participação brasileira em um ensaio clínico global conduzido pela farmacêutica GSK, que testa o uso combinado de dois medicamentos antirretrovirais injetáveis, o cabotegravir e a rilpivirina, diretamente nos glúteos de pacientes que já convivem com o vírus.
A paciente, identificada como Pisci Bruja, tomava comprimidos diários desde que recebeu o diagnóstico há 13 anos. Antropóloga, doutoranda em saúde pública na Universidade de São Paulo e ativista da causa, ela interrompeu a rotina de pílulas diárias para iniciar a nova fase terapêutica. A pesquisa esclarece que o método em avaliação não se trata de uma vacina preventiva ou curativa, mas sim de uma alternativa voltada a controlar a replicação viral no organismo com menor frequência de administração.
O estudo internacional conta com a previsão de cerca de 564 participantes distribuídos em nove países, incluindo o Brasil, Estados Unidos, Argentina, Austrália, Canadá, Japão, México, Espanha e Reino Unido. No território brasileiro, o ensaio ocorre em sete centros de pesquisa distintos, com uma estimativa de recrutamento que varia entre 63 e 77 voluntários no total. As vagas foram preenchidas por meio de triagem interna em serviços públicos, sem inscrições abertas ao público geral.
A metodologia da pesquisa compara o grupo de quatro meses com um grupo de controle que recebe as injeções a cada dois meses. Esta modalidade bimestral já possui aprovação em agências regulatórias internacionais de nações como Canadá, Estados Unidos, Austrália e União Europeia, embora ainda não esteja liberada pelas autoridades sanitárias brasileiras. A conclusão global do estudo clínico está programada para setembro de 2029.
Especialistas apontam que a ampliação do intervalo entre as doses traz vantagens significativas para a rotina dos pacientes, reduzindo a necessidade de idas frequentes aos postos de saúde de seis para três vezes ao ano. A tecnologia de longa duração também beneficia populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua, indivíduos privados de liberdade ou aqueles que viajam com frequência, eliminando a exigência de carregar e ingerir comprimidos diariamente.
Atualmente, o Sistema Único de Saúde fornece terapias antirretrovirais orais diárias que garantem a supressão da carga viral e evitam a transmissão sexual do vírus quando mantidas em níveis indetectáveis. Questionado sobre a eventual incorporação de terapias injetáveis, o Ministério da Saúde declarou que, diante das trinta opções orais já disponíveis e da supressão viral alcançada por grande parte dos pacientes atendidos, não há discussões em andamento para a adoção de novas opções terapêuticas devido à atual situação de registro desses medicamentos no país.