Dispositivos vestíveis passam a monitorar a saúde da mulher
Relógios inteligentes e anéis rastreadores buscam antecipar sinais da menopausa, enquanto especialistas alertam sobre riscos de ansiedade e automonitoramento excessivo.
A tecnologia voltada para o bem-estar e o monitoramento pessoal avança rapidamente no Brasil e no mundo, com relógios inteligentes e anéis rastreadores incorporando novas funções para tentar prever e acompanhar a menopausa. No entanto, o uso desses dispositivos portáteis, conhecidos como wearables, tem gerado debates acalorados entre médicos e nutricionistas sobre os limites entre o autoconhecimento e a obsessão por dados.
Dados de consultorias especializadas mostram que o mercado desses aparelhos é expressivo, tendo movimentado US$ 1,8 bilhão no Brasil apenas no ano passado, com a venda de 28,2 milhões de unidades. Com sensores cada vez mais complexos, os equipamentos coletam métricas contínuas que frequentemente são interpretadas por ferramentas de inteligência artificial antes mesmo de chegarem aos consultórios médicos.
Especialistas apontam que o acompanhamento diário e sem orientação adequada pode desencadear quadros de ansiedade e comportamentos obsessivos nos usuários. A endocrinologista Alessandra Rascovski relata que pacientes chegam frequentemente com relatórios gerados por algoritmos e destaca que a análise deve observar padrões semanais, e não diários, para evitar a autocobrança excessiva.
A relação entre médico e paciente também passa por transformações com a popularização dessas tecnologias. Para o médico Carlos Pedrotti, presidente da Saúde Digital Brasil, o acesso imediato às métricas coloca o indivíduo no centro do cuidado, exigindo que os profissionais atuem como consultores críticos para orientar a interpretação correta dos exames e dados coletados.
Por outro lado, o uso associado a inteligências artificiais e smartglasses permite que usuários organizem rotinas de exercícios e dietas de forma autônoma. Usuários adeptos dessas tecnologias utilizam plataformas para gerar relatórios detalhados que auxiliam no planejamento de treinos, embora especialistas reforcem que fórmulas genéricas de aplicativos nem sempre respeitam a individualidade biológica de cada corpo.
A nutricionista Ana Luiza Moraes dos Santos, professora da UFMG, adverte que aplicativos de contagem de calorias por fotografias e algoritmos padronizados frequentemente falham na precisão. Segundo ela, a ausência de supervisão especializada pode resultar em restrições alimentares perigosas, isolamento social e comportamentos compensatórios nocivos à saúde.
Diante desse cenário, especialistas reforçam a importância de manter a supervisão humana e o senso crítico frente aos diagnósticos gerados por máquinas. A tecnologia é vista como uma aliada importante para a medicina preventiva e o desempenho físico, desde que empregada com cautela e acompanhamento profissional adequado.