Embrapa atua em frentes diversas, da inovação em laticínios à clonagem de árvore centenária
Pesquisadores da instituição destacam novas tendências no mercado de lácteos e lideram esforços para preservar o material genético de uma araucária gigante em Santa Catarina.
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem desempenhado papéis fundamentais em cenários distintos que vão desde as transformações na indústria de alimentos até a conservação ambiental e genética. Enquanto pesquisadores apontam mudanças significativas no comportamento de consumo e novas demandas para o setor de lácteos, equipes florestais da instituição se mobilizam para clonar uma árvore secular que tombou no interior de Santa Catarina.
No setor de alimentos, o pesquisador da Embrapa Paulo do Carmo Martins destacou, durante o Milk Summit Mercosul em Ijuí, que a indústria de laticínios vive um momento de intensa inovação impulsionado por novas exigências nutricionais. Segundo ele, o mercado agora molda a produção, rompendo com o modelo tradicional em que a oferta determinava o consumo. Essa mudança é influenciada pela busca crescente por proteínas, estimulada por novidades como o uso de whey protein em cervejas sem álcool e parcerias com o setor de cosméticos.
Para os produtores rurais, essa nova dinâmica impõe desafios operacionais rigorosos, exigindo maior eficiência na gestão, redução de custos e rigorosos padrões de garantia sanitária. O pesquisador ressalta que o avanço de produtos ricos em proteína encontra solo fértil em gerações mais jovens e nas novas tendências de nutrição, forçando os laticínios a ocuparem espaços inéditos no mercado.
Em paralelo aos avanços na agroindústria, a Embrapa Florestas assumiu uma missão de resgate genético em uma floresta experimental localizada em Caçador, Santa Catarina. Um exemplar de araucária com mais de 40 metros de altura, conhecido popularmente como Pinheirão, tombou após sofrer os impactos de eventos climáticos extremos e solos encharcados. A queda, estimada por análises de anéis de crescimento em idade entre 400 e 500 anos, ocorreu em uma espécie que hoje conta com apenas 3% de sua cobertura florestal original devido ao histórico de exploração madeireira.
Mesmo meses após a queda, pesquisadores liderados pelo engenheiro florestal Ivar Wendling identificaram brotos vivos capazes de viabilizar a clonagem da planta. A equipe recolheu ramos tanto do tronco tombado quanto da copa alta, que antes da queda estava inacessível. O material foi encaminhado para a sede da Embrapa Florestas, na Região Metropolitana de Curitiba, onde dezenas de mudas já foram produzidas por meio de técnicas de enxertia.
O processo de clonagem funciona como uma cirurgia vegetal, fixando partes do Pinheirão em mudas jovens originadas de sementes. Se o enxerto vingar após o período de adaptação, as novas plantas carregarão exatos 100% do material genético da árvore original. O trabalho é considerado uma corrida contra o tempo, já que a perda de viabilidade do tecido vegetal após o tombamento reduz drasticamente as chances de sucesso na preservação.
As ações da Embrapa ilustram a amplitude da atuação científica no país, conectando as demandas mercadológicas do agronegócio e da nutrição humana à preservação urgente de relíquias ecológicas ameaçadas pela devastação histórica e pelas mudanças climáticas.