Governo brasileiro adota pragmatismo e avalia medidas após fuga de Flávio
Itamaraty considera adiar aval a embaixador dos EUA e descarta reatar relações plenas com a Argentina no curto prazo.
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva optou por uma estratégia de pragmatismo diante da fuga do senador Flávio Bolsonaro para Miami, nos Estados Unidos, sob suspeita de apoio dos governos norte-americano e argentino. Derrotado no segundo turno das eleições presidenciais, o parlamentar deixou o Brasil de forma clandestina, descumprindo uma ordem do Supremo Tribunal Federal emitida pelo ministro Alexandre de Moraes, que proibia sua saída do país e determinava a entrega de seus passaportes à Polícia Federal.
A evasão contou com um trajeto que passou pela Argentina antes de seguir em um jato particular rumo à Flórida, em uma operação logística supostamente auxiliada por funcionários ligados ao governo de Donald Trump. O empresário argentino proprietário da empresa responsável pelo transporte confirmou que o voo foi contratado e pago por meio de um intermediário com recursos de uma conta bancária nos Estados Unidos.
Apesar dos indícios de interferência externa e do incômodo gerado pelas revelações, a ordem no Palácio do Planalto é tratar o episódio prioritariamente na esfera judicial, evitando confrontos diretos com Donald Trump ou com o presidente argentino, Javier Milei. O Executivo brasileiro aposta que o assunto desgasta a própria oposição e prefere não inflamar novas crises diplomáticas que possam prejudicar negociações econômicas cruciais.
Como reflexo imediato do caso, o governo brasileiro avalia protelar a concessão do consentimento oficial ao deputado estadual Daniel Pérez, indicado por Washington para assumir a embaixada dos Estados Unidos no Brasil. No front diplomático com os vizinhos sul-americanos, o retorno de embaixadores entre Brasília e Buenos Aires permanece totalmente descartado, mantendo a representação por meio de encarregados de negócios enquanto o episódio não for esclarecido.
A relação com a Argentina já enfrentava forte desgaste desde o meio do ano, quando o embaixador brasileiro foi chamado de volta para consultas após ofensas públicas desferidas por Milei contra Lula. O Itamaraty estuda convocar a encarregada de negócios da embaixada argentina para prestar esclarecimentos sobre a passagem do senador pelo território do país vizinho antes do embarque rumo aos Estados Unidos.
Enquanto isso, autoridades brasileiras participam de reuniões internacionais, como o encontro de chanceleres do G-20 em Atlanta, mantendo os canais institucionais abertos sem solicitar reuniões bilaterais urgentes. A expectativa do governo é observar os desdobramentos políticos no exterior, incluindo as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, para avaliar os próximos passos da diplomacia nacional sem ceder a provocações políticas.