Livro revela papel de mercenários e degredados no Brasil Imperial
Pesquisa vinculada à UFPA aborda a nomeação de figuras controversas para cargos estratégicos na Amazônia durante o século XIX.
Monarcas do período do Brasil Imperial mantiveram uma política de nomeação de desertores e degredados para cargos públicos estratégicos nas fronteiras do Norte, consideradas pouco habitadas e vulneráveis a invasões estrangeiras. Essa prática intensificou-se especialmente após a Cabanagem, revolta popular ocorrida entre 1835 e 1840.
O tema é o foco central do livro "Senhores de armas e de terras", fruto da pesquisa de doutorado da historiadora Maria José dos Santos no Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia da Universidade Federal do Pará (UFPA). A obra analisa o período entre 1836 e 1876 e investiga os arranjos políticos e fundiários na região norte.
De acordo com a pesquisa, figuras como o italiano Francisco Ricardo Zanny e o mercenário de origem alemã Ambrósio Pedro Ayres alcançaram altas patentes militares e postos de comando na Amazônia. A autora aponta que esses indivíduos utilizaram a violência estatal e o abuso de poder para expropriar terras públicas e gado, além de promover conflitos contra povos indígenas.
O estudo detalha que Zanny, um colaborador do exército de Napoleão Bonaparte que se estabeleceu em Belém, acumulou grande poder e riqueza no extremo norte, chegando a ser nomeado coronel e provedor. Já Ambrósio Ayres, conhecido como Bararoá, destacou-se por atuar na repressão à Cabanagem e exigiu pagamentos avultosos do Império, apropriando-se de centenas de cabeças de gado das fazendas nacionais.
A investigação historiográfica baseia-se em documentos de arquivos públicos do Amazonas, Pará, Maranhão, Rio de Janeiro e de Lisboa. A autora aponta que a atuação dessas figuras revela a falta de critérios éticos do Estado Imperial na tentativa de assegurar o controle territorial e moldar o sistema fundiário na Amazônia.
O livro também revisa episódios da historiografia oficial, como a fundação de Boa Vista, questionando a narrativa tradicional sobre o papel de certas lideranças militares locais na origem da capital de Roraima. A publicação busca jogar luz sobre as alianças políticas e econômicas que marcaram a colonização e a consolidação territorial na região.
Fontes consultadas
- Farra com dinheiro público engordou contas bancárias em mais de R$ 12 milhões - Coluna Olavo Dutra - Coluna portalolavodutra.com.br
- Arte paraense é destaque na ART.PE 2026 com dez artistas em Recife oliberal.com
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