Apreensão de canetas emagrecedoras ilegais cresce no Rio Grande do Sul
Autoridades alertam para os graves riscos à saúde pública decorrentes do contrabando e da automedicação com esses fármacos.
A quantidade de canetas emagrecedoras importadas ilegalmente e apreendidas pela Receita Federal no Rio Grande do Sul registrou um aumento de 26 vezes neste ano, na comparação com todo o ano anterior. Em apenas nove meses, mais de 3 mil unidades foram recolhidas no estado, alcançando um valor estimado em R$ 1,2 milhão. Os produtos chegam ao território brasileiro por meio de diferentes rotas clandestinas, sendo ocultados em veículos, transportados em ônibus, enviados por encomendas postais ou declarados falsamente como outros itens para burlar a fiscalização.
O avanço das apreensões gera grande preocupação entre autoridades e especialistas devido à total ausência de garantias sobre a procedência, o armazenamento e a composição real das substâncias. Em uma operação recente nos Correios, auditores fiscais encontraram embalagens que tentavam simular condições adequadas de transporte com o uso de bolsas de gelo, embora sem qualquer segurança de que a refrigeração exigida para o medicamento tenha sido mantida ao longo de todo o percurso.
Para a comunidade médica, o cenário extrapolou a questão tributária e se transformou em um grave problema de saúde pública. O endocrinologista Fernando Gerchman, do Hospital Moinhos de Vento, destaca que a entrada clandestina impede qualquer controle regulatório e impossibilita saber o grau de pureza dos compostos. Segundo o especialista, a presença de impurezas ou agentes microbiológicos pode desencadear infecções, reações autoimunes, inflamações severas, danos irreversíveis e até mesmo levar à morte.
O debate sobre o acesso a esses tratamentos ocorre em um momento em que medicamentos da classe dos agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, revolucionam o combate à obesidade e ao diabetes. Durante o Summit Saúde, em São Paulo, especialistas defenderam a importância desses fármacos não apenas para a perda de peso, mas também para a melhoria de condições associadas, como insuficiência cardíaca e riscos cardiovasculares reduzidos, argumentando que a incorporação na rede pública e na saúde suplementar deve considerar a segurança, a efetividade e a sustentabilidade financeira.
Especialistas também criticam a banalização do termo canetas emagrecedoras, expressão que reforça o preconceito de que a obesidade decorre da falta de força de vontade ou que se resume a uma questão puramente estética. A obesidade é uma doença crônica complexa que envolve fatores biológicos, ambientais e comportamentais, exigindo acompanhamento multidisciplinar contínuo que abarque endocrinologia, atividade física e psicologia comportamental.
O uso indiscriminado e sem indicação profissional é outro fator alarmante. Um levantamento publicado no International Journal of Obesity apontou que quase um quarto dos brasileiros entrevistados utilizou esses fármacos sem prescrição, prática mais frequente entre pessoas que não têm obesidade. Entre os riscos associados estão o impacto no desenvolvimento de jovens, o agravamento de transtornos alimentares, a recuperação rápida do peso após a interrupção do tratamento e a perda significativa de massa magra.
Diante dos perigos evidentes e da falta de controle sobre os produtos irregulares, as autoridades reforçam que a aquisição de medicamentos deve ser realizada exclusivamente em farmácias e drogarias regularizadas, sempre sob rigorosa orientação e acompanhamento médico.