Cidades-pêndulo de 9,2 milhões de eleitores definem disputa presidencial
Um grupo de 495 municípios que alternou o voto em três eleições consecutivas desponta como fator determinante na corrida presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O primeiro turno da eleição consolidou 495 municípios brasileiros como áreas pendulares, caracterizadas pela alternância de preferência do eleitorado a cada ciclo de quatro anos. Nessas localidades, que reúnem um total de 9,2 milhões de eleitores, a maioria dos votos foi destinada a Jair Bolsonaro em 2018, migrou para Luiz Inácio Lula da Silva na disputa subsequente e voltou a mudar no primeiro turno deste ano, elegendo majoritariamente Flávio Bolsonaro.
O maior município enquadrado nesse perfil de comportamento oscilante é Osasco, localizado na Região Metropolitana de São Paulo. A cidade, que possui 583 mil pessoas aptas a votar, registrou ampla vantagem para Bolsonaro sobre Fernando Haddad no primeiro turno de 2018. Em 2022, Lula venceu na mesma praça por uma diferença estreita de quatro pontos percentuais. No pleito atual, Flávio superou o atual presidente por uma margem ainda menor, de apenas dois pontos.
Em termos geográficos, Goiás lidera em proporção, com um em cada cinco municípios classificados como pendulares. Minas Gerais ocupa o segundo lugar, com 19%, mas sobressai pelo volume absoluto ao contabilizar 162 cidades com esse perfil. A distância de aproximadamente 600 mil votos favorável a Flávio Bolsonaro em solo mineiro no primeiro turno exerceu forte influência no panorama nacional.
Entre as cidades mineiras que integram o grupo estão Betim e Montes Claros, além de municípios do cinturão metropolitano de Belo Horizonte, como Ribeirão das Neves e Santa Luzia. O cinturão ao redor da capital mineira é frequentemente apontado por analistas como uma das regiões mais críticas do país para a definição do pleito presidencial.
Malco Camargos, cientista político, professor da Fundação Dom Cabral e diretor do Instituto Ver, avalia que as reduções mais expressivas na votação de Lula no estado ocorreram em municípios de pequeno porte, onde a estratégia de comunicação enfrentou dificuldades para alcançar o eleitorado no primeiro turno. Segundo o especialista, reverter esse cenário em Minas Gerais é considerado indispensável para a campanha presidencial.
Em uma perspectiva histórica mais ampla, o cientista político e jornalista Fábio Vasconcellos, docente da Uerj e da PUC-Rio, analisou o comportamento de cidades que alternaram o posicionamento político mais de duas vezes desde 2002, considerando os segundos turnos. O levantamento identificou 1.091 municípios nessa condição, o que representa quase um quinto do total nacional.
O estudo aponta que 75% desses locais possuem até 20 mil habitantes, mas a concentração de votos está pulverizada de forma desigual: 68% do total de eleitores desse conjunto habitam em apenas 65 cidades, geralmente situadas em grandes regiões metropolitanas, o que potencializa o impacto de qualquer oscilação local no resultado geral.
Enquanto a movimentação nessas regiões ganha relevância na reta final, levantamentos de opinião pública recentes indicam variações no comportamento do eleitor. Dados divulgados na quarta-feira mostraram que o índice de eleitores que se declaram indecisos na modalidade espontânea subiu para 14%, o dobro do registro anterior.