Cirurgia da endometriose evolui com foco em precisão e preservação
Especialista aponta avanços na laparoscopia e na robótica para o tratamento de casos complexos da doença.
A endometriose afeta cerca de 10% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo, alcançando aproximadamente 190 milhões de pessoas segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, o Ministério da Saúde estima que a condição atinja de 5% a 15% desse público. Quando o tratamento cirúrgico se faz necessário, os procedimentos incorporaram técnicas minimamente invasivas nas últimas décadas, passando a contar com a videolaparoscopia avançada e a cirurgia robótica.
Segundo o cirurgião ginecológico Patrick Bellelis, doutor pela Faculdade de Medicina da USP, a atuação médica passou por uma transformação conceitual profunda. O foco deixou de ser apenas a remoção das lesões mais evidentes para adotar uma postura mais anatômica, sistematizada e individualizada. Exames de imagem mais precisos possibilitam o mapeamento pré-operatório da doença, enquanto inovações tecnológicas como ópticas de alta definição, fluorescência e plataformas robóticas permitem intervir em regiões como o intestino, a bexiga e os ureteres sem a necessidade de cirurgias abertas tradicionais.
O especialista ressalta que o objetivo central da intervenção moderna não é simplesmente retirar o máximo de tecido possível, mas sim buscar o melhor resultado com segurança e preservação orgânica. O planejamento cirúrgico atual busca respeitar a anatomia pélvica, os sintomas apresentados e os planos reprodutivos de cada paciente, equilibrando a eficácia terapêutica com a integridade funcional dos órgãos afetados.
No tocante à comparação entre as vias de acesso, uma revisão científica publicada em 2024 indicou que a plataforma robótica não apresenta inferioridade em relação à laparoscopia convencional, embora os custos elevados e as exigências de infraestrutura restrinjam a sua disponibilidade. De acordo com o médico, a decisão sobre qual técnica utilizar depende de fatores como a localização e a extensão das lesões, o histórico cirúrgico da paciente, a necessidade de reconstruções delicadas e a experiência da equipe médica, sem uma regra absoluta que determine a superioridade global de um método sobre o outro.
Em comparação com os procedimentos abertos tradicionais, a laparoscopia apresenta vantagens consolidadas na recuperação pós-operatória, estando associada a menores índices de sangramento, redução da dor e tempo de internação mais abreviado. Contudo, o especialista alerta que intervenções em quadros de endometriose profunda com comprometimento urinário ou intestinal continuam sendo cirurgias de grande porte, exigindo cautela e acompanhamento rigoroso, com altas hospitalares que frequentemente ocorrem entre 24 e 48 horas.
A preservação da fertilidade constitui outro pilar fundamental na abordagem contemporânea da enfermidade, uma vez que a população afetada é predominantemente jovem. No caso dos endometriomas ovarianos, uma postura excessivamente agressiva pode comprometer a reserva ovariana ao remover tecido saudável juntamente com o cisto. Dessa forma, o tratamento cirúrgico busca otimizar as chances de gravidez espontânea em cenários específicos, embora a reprodução assistida permaneça como a alternativa mais recomendada em situações de maior comprometimento ovariano.
Por fim, os desafios para o enfrentamento da endometriose envolvem a redução do tempo até o diagnóstico definitivo, estimado pela OMS em um intervalo que varia de quatro a 12 anos, além da expansão do acesso a equipes multidisciplinares capacitadas. O avanço na avaliação clínica e em exames de imagem especializados permite o planejamento terapêutico precoce, superando a antiga normalização de cólicas menstruais incapacitantes e a necessidade de cirurgias meramente exploratórias.