Crise na habitação gera preocupação em Portugal e detenções em protestos
Estudo aponta que mais de 85% da população teme o acesso à moradia, enquanto manifestações recentes resultam em dezenas de feridos e processos judiciais.
O acesso à habitação e a disparada nos preços continuam a gerar forte apreensão na sociedade, conforme revela um estudo divulgado pelo Observatório da Sociedade Portuguesa da Católica-Lisbon SBE. Realizada em julho de com 964 participantes, a pesquisa indica que 85,1% da população demonstra elevados níveis de preocupação com a facilidade de adquirir ou alugar uma moradia, ao passo que 92,1% apreendem com a escalada dos custos no setor imobiliário.
A tensão em torno da temática também transbordou para as ruas de Lisboa e do Porto, onde atos públicos pelo direito à habitação foram reprimidos pelas autoridades policiais com o uso de força e cães. De acordo com balanços oficiais divulgados pela Polícia de Segurança Pública, as intervenções resultaram em 33 feridos e dezenas de detenções por desobediência após os manifestantes recusarem ordens para desocupar as praças e retirar tendas.
No âmbito judicial, seis pessoas detidas durante os protestos na cidade do Porto serão julgadas em processo sumário no dia de novembro. Embora o Ministério Público tenha proposto a suspensão provisória do procedimento, a medida exige a assunção de culpa, cenário que a defesa dos arguidos tende a rejeitar. Paralelamente, a Inspeção-Geral da Administração Interna abriu um processo administrativo para apurar as circunstâncias e os procedimentos adotados nas ações policiais.
Do ponto de vista econômico, o encarecimento das residências é impulsionado por um desequilíbrio histórico entre a oferta e a procura. Dados do Instituto Nacional de Estatística referentes ao segundo trimestre apontam que os valores dos imóveis subiram 16,5% em comparação ao mesmo período do ano anterior, mesmo com a retração no número de transações. Especialistas apontam que a desaceleração na construção civil na última década, somada à escassez de mão de obra e ao aumento nos custos de materiais e de financiamentos, dificulta a expansão do mercado.
A pressão demográfica decorrente do fluxo migratório registado nos últimos anos também intensificou a demanda por imóveis para arrendamento, elevando a mediana das rendas em novos contratos. Em contrapartida, proprietários muitas vezes optam por manter unidades vazias devido à valorização patrimonial anual e aos riscos associados ao inadimplemento de inquilinos, perpetuando o cenário de escassez de opções acessíveis.
Diante da instabilidade, o estudo da Católica revela que 68,4% dos inquiridos manifestam grande interesse em poupar e adotam uma postura prudente na gestão financeira. O custo de vida elevado, somado às dificuldades habitacionais, mantém a população cautelosa quanto ao futuro econômico do país, enquanto debates políticos se dividem entre a necessidade de simplificar licenciamentos para novas construções e as reivindicações de movimentos sociais por tetos máximos nas rendas e reversão de leis de arrendamento.
Fontes consultadas
- Mais de 85% dos inquiridos em estudo da Católica muito preocupados com acesso à habitação dnoticias.pt
- Habitação. Manifestantes detidos no Porto julgados a 13 de novembro dn.pt
- Habitação: IGAI abre processo após intervenções policiais em Lisboa e no Porto sabado.pt
- Habitação: porque é que os preços não descem? observador.pt
- Seis detidos durante manifestação pela habitação no Porto serão julgados a 13 de novembro cmjornal.pt