Jovem supera desafios e passa em medicina na Unicamp
Estudante de escola pública, Kelly Cristina contou com apoio da mãe para vencer a pressão familiar e conquistar uma vaga no ensino superior.
Aos 18 anos, Kelly Cristina Almeida Souza foi aprovada no curso de medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) após um ano de preparação intensa e direto do terceiro ano do ensino médio. Estudante de escola pública de Campo Limpo Paulista, em São Paulo, ela não possuía recursos financeiros para pagar um cursinho preparatório e precisou estruturar um método próprio de estudo baseado em videoaulas gratuitas, provas anteriores e apoio de professores.
A decisão de cursar medicina ia na contramão das expectativas de parte de seus familiares que, com crenças muito religiosas, esperavam que ela priorizasse o casamento em vez da carreira acadêmica. A principal incentivadora de sua trajetória foi a mãe, uma técnica de enfermagem aposentada que ganhava cerca de um salário mínimo e sustentava a casa com quatro filhos, enfrentando uma situação financeira bastante delicada.
Para tentar mudar o cenário econômico da família, Kelly começou a trabalhar no caixa de uma padaria aos 16 anos com o objetivo de juntar dinheiro e comprar um computador. A reviravolta nos planos ocorreu durante o segundo ano do ensino médio, quando participou do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) por sugestão de uma professora de língua portuguesa e obteve 920 pontos na redação, o que a estimulou a considerar a medicina.
Com o incentivo da mãe, que foi pessoalmente até o estabelecimento comercial comunicar que a jovem deixaria o emprego, Kelly passou a dedicar cerca de oito horas diárias aos estudos de segunda a sexta-feira. A rotina era combinada com os cuidados prestados aos três irmãos mais novos e a realização de tarefas domésticas, mantendo os sábados voltados para simulados e os domingos reservados para o descanso.
O processo, contudo, foi marcado por momentos de forte ansiedade e insegurança. Nos primeiros simulados, a estudante ficava com notas abaixo das notas de corte dos vestibulares, gerando frustração. Para lidar com a pressão psicológica, ela adotou a prática de yoga e meditação durante a pandemia, realizando os exercícios diariamente e buscando manter o foco em seus objetivos.
A tensão aumentou na semana que antecedeu a primeira fase da Unicamp, quando Kelly sofreu uma crise de ansiedade. Para reverter o quadro, a mãe a levou para conhecer o campus da instituição universitária pela primeira vez, fortalecendo sua confiança para a realização do exame.
Aprovada na primeira chamada do vestibular de 2021 na 371ª posição por meio de modalidade de cotas para escola pública e pardos, Kelly também havia avançado para a segunda fase nos processos seletivos da USP e da Unesp, mas optou pela Unicamp por ter recebido o resultado de forma antecipada. Aos 23 anos, a estudante conclui sua graduação e se prepara para colar grau.