Pular para o conteúdo
Ciência

Mexilhão-dourado avança no Rio São Francisco e preocupa especialistas

Espécie exótica invasora foi localizada no Norte de Minas Gerais a cerca de mil quilômetros de registros anteriores na bacia.

Por 3 min de leitura

Mexilhão-dourado avança no Rio São Francisco e preocupa especialistas
Mexilhão-dourado avança no Rio São Francisco e preocupa especialistas

Pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros identificaram a presença do mexilhão-dourado no Rio São Francisco, localizado no Norte de Minas Gerais, a aproximadamente mil quilômetros do ponto mais próximo registrado anteriormente na bacia hidrográfica. A descoberta, publicada na revista científica CheckList, teve como base coletas realizadas entre julho de 2024 e abril de 2025 nos municípios de São Francisco e São Romão.

O molusco de água doce, cientificamente chamado Limnoperna fortunei e originário da Ásia, chegou à América do Sul em 1991 pela água de lastro de navios cargueiros no estuário do Rio da Prata, na Argentina. No final da década de 1990, a espécie ingressou no Brasil por embarcações na hidrovia Paraná-Paraguai e, ao longo de mais de trinta anos, espalhou-se por reservatórios e rios das regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, além de trechos do Nordeste e da Amazônia.

Durante as expedições recentes na bacia do São Francisco, a equipe coletou 113 exemplares da espécie em estações situadas nos municípios mineiros de São Francisco e São Romão. Por outro lado, as amostragens realizadas em Ibiaí, Pirapora e no reservatório de Três Marias não apresentaram registros do molusco, o que afasta, segundo os cientistas, a hipótese de um avanço natural contínuo a partir do reservatório da Usina Hidrelétrica de Furnas.

A distância entre o registro atual e o anterior, que havia sido feito entre 2016 e 2017 na região da barragem de Sobradinho, entre a Bahia e Pernambuco, levou os pesquisadores a levantarem a hipótese de que pequenas embarcações possam ter transportado o organismo rio acima. Contudo, os especialistas ressaltam que a causa exata do deslocamento ainda não está definitivamente comprovada.

A capacidade do mexilhão-dourado de formar colônias densas sobre superfícies submersas, processo conhecido como bioincrustação, representa uma ameaça severa para hidrelétricas, sistemas de captação de água, irrigação, navegação e pesca. O setor elétrico nacional gasta anualmente cerca de US$ 9,97 milhões apenas com ações de prevenção e controle do molusco, que obstrui tubulações, filtros e sistemas de resfriamento.

Além dos impactos econômicos nas instalações industriais e na infraestrutura, a expansão da espécie invasora preocupa devido à competição por alimento e espaço com organismos nativos, o que pode alterar o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos. No ambiente natural e em áreas já ocupadas, a erradicação completa do molusco é considerada improvável com as tecnologias atuais.

Diante da ausência do invasor no reservatório de Três Marias, os pesquisadores destacam que a situação representa uma oportunidade para intensificar medidas preventivas na região. Entre as recomendações apontadas estão o reforço no monitoramento ambiental, a inspeção e higienização rigorosa de embarcações que transitam entre bacias e a orientação a pescadores e operadores de turismo náutico.

Fontes consultadas

Leia também