Polícia Federal investiga esquema de tráfico de drogas no Aeroporto de Guarulhos
Organizações criminosas recrutam funcionários com acesso a áreas restritas para movimentar entorpecentes em voos internacionais.
O Aeroporto Internacional de Guarulhos, o maior do Brasil, tem sido alvo de investigações intensas da Polícia Federal devido à atuação de organizações criminosas que utilizam funcionários do terminal para o tráfico de drogas. Em 2026, o volume de entorpecentes apreendidos no local atingiu quase cinco toneladas, o maior índice já registrado na história do aeroporto, acompanhado pela prisão de 274 pessoas, incluindo trabalhadores que possuíam acesso a áreas estratégicas.
Segundo o delegado da Polícia Federal Ivo Silva, o esquema envolve o aliciamento de profissionais de diversos setores, como limpeza e auxílio de transporte. O objetivo é garantir que as substâncias ilícitas alcancem as aeronaves sem passar pelos protocolos de segurança habituais. As investigações revelaram que os criminosos utilizam rotas invisíveis aos passageiros, como o transporte em veículos de serviço, a ocultação de bagagens em vestiários sem monitoramento de câmeras e até o rompimento de cercas perimetrais para acessar carrinhos de carga.
Um dos episódios recentes que ilustrou a complexidade do esquema envolveu uma perseguição no telhado do terminal, onde um funcionário foi detido com 33 quilos de cocaína. Em outra ocasião, agentes interceptaram malas contendo drogas que seriam enviadas para Lisboa, após um colaborador fotografar a carga antes da abordagem. A defesa do funcionário preso no telhado nega as acusações, alegando que a mala apreendida não estava sob sua posse no momento do flagrante.
Além da exportação de drogas, a Polícia Federal identificou a modalidade de 'tráfico reverso', na qual bagagens de passageiros comuns são clonadas ou têm suas etiquetas trocadas para o transporte de entorpecentes oriundos da Ásia, Europa e América do Norte. Esse método coloca viajantes inocentes em risco, como ocorreu com a brasileira Gabriele Amador Silva, que teve sua mala extraviada em uma viagem internacional e, ao recuperá-la, descobriu que o nome dela estava vinculado a uma carga de haxixe apreendida no aeroporto.
O cenário de insegurança também gerou desdobramentos em outros âmbitos do setor aéreo, como o caso de uma passageira que, em 2024, recusou-se a ceder seu assento na janela para uma criança em um voo da GOL. O episódio, que viralizou após ser registrado por outra passageira, resultou em uma série de ações judiciais movidas pela mulher contra a companhia aérea e a pessoa que a filmou. Ela alegou falta de suporte por parte da tripulação durante o conflito e afirmou que a exposição pública prejudicou sua carreira profissional.
Diante da gravidade das denúncias de tráfico, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que avalia novos investimentos para reforçar a segurança em Guarulhos. Por sua vez, a concessionária GRU Airport declarou que mantém a estrutura de vigilância e busca aprimorá-la em colaboração constante com os órgãos de segurança pública. A Polícia Federal reforça que o combate ao crime organizado no aeroporto exige, além da repressão, um trabalho contínuo de prevenção para desarticular a logística internacional do tráfico.