Prefeito e deputado trocam acusações públicas em Três Lagoas
A disputa política entre antigos aliados em Mato Grosso do Sul foi motivada por divergências na organização da tradicional Cavalgada de Arapuá.
A organização da 19ª Cavalgada de Arapuá, realizada nos dias 17 e 18 de outubro no distrito de Três Lagoas, terceira cidade mais populosa de Mato Grosso do Sul, transformou-se no epicentro de uma disputa pública entre o prefeito Cassiano Maia e seu antigo aliado político, o deputado estadual eleito Ângelo Guerreiro. O evento festivo, que reuniu mais de 8 mil pessoas e contou com a participação de mais de 300 cavalos segundo balanço divulgado pela administração municipal, evidenciou o rompimento definitivo entre os dois políticos após um período de aliança consolidada nas eleições de 2024.
O estopim para a nova troca de acusações públicas foi a decisão da Prefeitura de Três Lagoas de transferir a condução do evento para o Sindicato Rural do município. A mudança desagradou profundamente a Ângelo Guerreiro, idealizador da cavalgada em 2005 e ex-prefeito da cidade por dois mandatos consecutivos entre 2017 e 2024. Guerreiro criticou a exclusão da Associação Ferradura — entidade que historicamente participava da realização da festividade — e questionou a experiência do sindicato na condução do evento tradicional.
Em pronunciamento divulgado nas redes sociais, o deputado eleito declarou que a instituição e a própria prefeitura não são donas da festa. Apesar das críticas contundentes à escolha da administração municipal, Guerreiro incentivou a população a comparecer à celebração, mesmo decidindo ficar de fora da organização. A manifestação repercutiu rapidamente no cenário político local e motivou uma resposta incisiva do atual chefe do Executivo municipal.
No sábado, Cassiano Maia publicou um vídeo com mais de dez minutos de duração no qual rebateu as críticas do antecessor e expôs antigas divergências políticas. O atual prefeito defendeu a legalidade do processo que levou à contratação do Sindicato Rural, afirmando que a entidade venceu um procedimento público e que outras agremiações interessadas poderiam ter participado da seleção. Além disso, o prefeito acusou Guerreiro de tentar manter influência sobre a festividade e de utilizar a celebração para promoção política pessoal.
As tensões entre os dois antigos aliados, no entanto, extrapolam a questão da festividade rural e remontam ao período eleitoral de 2024 e aos desdobramentos políticos de 2026. Cassiano afirmou que o afastamento começou quando assumiu o compromisso de estudar a redução da jornada diária dos servidores municipais, medida rejeitada pelo antecessor. A ruptura se aprofundou em setembro, durante a campanha legislativa, quando Guerreiro acusou publicamente o sucessor de traição política devido ao apoio prestado a um adversário na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa.
Além da polêmica sobre a cavalgada, o prefeito aproveitou a manifestação pública para criticar problemas administrativos herdados da gestão anterior, citando falhas na iluminação pública, na manutenção de áreas verdes e na infraestrutura de escolas municipais. O Correio do Estado tentou contato com Cassiano Maia e Ângelo Guerreiro para obter esclarecimentos adicionais sobre a troca de acusações, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem.
Mesmo com o embate político travado nos bastidores e nas redes sociais, a programação da 19ª Cavalgada de Arapuá ocorreu dentro da normalidade, com desfiles, atividades tradicionais e apresentações musicais. Contudo, o encerramento da festividade deixa evidente a nova configuração política em Três Lagoas, onde o prefeito e o futuro representante do município no Legislativo estadual seguem distantes e em posições institucionais distintas.