Relatório aponta abusos e falhas em câmeras um ano após megaoperação no Rio
Documento da Human Rights Watch e da Defensoria Pública detalha registros de violência policial e lacunas em 4,4 mil horas de gravações analisadas após a ação que deixou 122 mortos.
Um ano após a Operação Contenção, realizada nos complexos do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, um relatório divulgado por organizações de direitos humanos e órgãos estaduais trouxe novos elementos sobre a ação policial mais letal da história do estado, que terminou com 122 mortes. A análise de 4,4 mil horas de gravações de câmeras corporais revelou episódios de agressões e ameaças contra moradores e detidos, além de falhas e interrupções nos registros audiovisuais durante os momentos mais críticos dos confrontos.
O levantamento, que inclui dados avaliados pela Human Rights Watch (HRW) e pela Defensoria Pública do Rio de Janeiro em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), aponta que nenhuma das 122 mortes registradas no dia 28 de outubro do ano passado foi capturada pelas lentes dos equipamentos policiais. Segundo César Muñoz, diretor da HRW no Brasil, as imagens mostram corpos no chão, mas não registram as interações ou os confrontos diretos que resultaram nos óbitos.
As investigações detalham casos específicos de violência praticada por agentes de segurança. Em um dos registros analisados, ocorrido no Batalhão de Choque na região da Vacaria, um adolescente de 16 anos foi agredido com um soco no rosto e ameaçado de morte enquanto dormia. Outras imagens documentaram situações em que detidos foram fotografados ao lado de cadáveres e orientações dadas por policiais para atirar nas pernas de suspeitos caso houvesse tentativa de fuga.
O relatório também chama a atenção para lacunas estratégicas e técnicas no uso das câmeras corporais. Na região de mata da Serra da Misericórdia, onde se concentrou a maior parte dos confrontos e onde a polícia montou um cerco conhecido como "muro do bope", os registros começaram a apresentar falhas justamente no período de intensificação dos tiroteios. Por volta de 12h11, mais da metade das gravações analisadas já havia sido interrompida, e nenhum dos 49 agentes do Bope avaliados registrou imagens após esse horário.
Além das interrupções, a proporção de policiais equipados com as câmeras foi considerada baixa diante do efetivo mobilizado. Cerca de 2,5 mil policiais civis e militares participaram da operação, mas apenas 527 PMs utilizavam os dispositivos. A Polícia Civil informou na época que dezenas de seus equipamentos estavam indisponíveis por problemas técnicos ou falhas operacionais.
No âmbito da segurança pública e do combate ao crime organizado, os desdobramentos da megaoperação continuam a ser debatidos por especialistas. Dados do Instituto Fogo Cruzado indicam uma redução de 61% nos tiroteios nos complexos nos meses seguintes à ação, passando de 41 para 16 ocorrências. No entanto, pesquisadores e analistas apontam que a diminuição dos disparos não significou a perda de território do Comando Vermelho, visto que 33 alvos com mandados de prisão ainda permanecem foragidos, incluindo lideranças apontadas como chefes da facção.
Os impactos da violência também continuam presentes na rotina escolar e comunitária da região. Registros da Secretaria Municipal de Educação mostram que o número de escolas municipais afetadas por suspensões de atividades no Complexo do Alemão subiu de 25 para 29 na comparação entre os períodos anterior e posterior à operação. Procuradas para comentar os apontamentos do relatório, as Secretarias de Estado de Polícia Militar e de Segurança Pública informaram que atenderam às solicitações de imagens enviadas pelos órgãos de investigação, mas não detalharam as questões específicas sobre o uso das câmeras e as condutas apuradas.
Fontes consultadas
- 'Vai morrer': imagens mostram agressão e ameaça de policiais a adolescente de 16 anos durante megaoperação no Alemão e na Penha extra.globo.com
- 33 alvos da megaoperação de 122 mortos ainda foragidos gazetadoparana.com.br
- Um Ano Após Megaoperação Letal no Rio, Famílias Buscam Respostas e Revelam Consequências Profundas das Mortes Violentas reportermaceio.com.br
- Um ano após megaoperação, Alemão segue sob domínio do Comando Vermelho veja.abril.com.br
- Um ano depois da megaoperação: o que as câmeras corporais dos policiais mostram e o que ficou oculto oglobo.globo.com