Pular para o conteúdo
Saúde

Anvisa restringe uso compassivo da polilaminina após registros de óbitos

Agência reguladora alinha critérios do medicamento experimental aos do estudo clínico de fase 1, gerando embate com pesquisadores.

Por 3 min de leitura

Anvisa restringe uso compassivo da polilaminina após registros de óbitos
Anvisa restringe uso compassivo da polilaminina após registros de óbitos

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu impor novas restrições ao uso compassivo da polilaminina, substância experimental voltada para o tratamento de lesões na medula espinhal. Com a medida anunciada recentemente, o acesso ao produto foi limitado aos critérios estabelecidos para o estudo clínico de fase 1, restringindo o uso a pacientes com traumas ocorridos em até 72 horas e localizados na região torácica da coluna, entre as vértebras T2 e T10.

Anteriormente, as autorizações concedidas pelo órgão regulador contemplavam pacientes com lesões completas em qualquer área da medula, desde que o incidente tivesse ocorrido em um prazo de até três meses. O mecanismo de uso compassivo permite o fornecimento de tratamentos ainda sem registro oficial a pessoas em situações críticas e sem alternativas terapêuticas satisfatórias.

A decisão da Anvisa foi fundamentada em uma reavaliação de riscos, motivada pelo crescimento expressivo nos pedidos de acesso e pela notificação de nove mortes entre os pacientes que receberam a substância. O órgão contabiliza 119 aplicações sob esse regime, enquanto o laboratório fabricante, Cristália, registra 111 aplicações e confirma o mesmo número de óbitos.

A mudança gerou forte reação da principal pesquisadora da substância, a bióloga Tatiana Coelho de Sampaio, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Em declarações divulgadas nas redes sociais, ela classificou a restrição como cruel e ilegal, argumentando que o prazo reduzido de 72 horas inviabiliza o acesso para a maioria dos pacientes. A pesquisadora também contestou a relação entre o produto e as mortes registradas.

Por outro lado, a Anvisa defendeu suas ações e repudiou ataques direcionados a seus servidores e dirigentes. O órgão destacou que a decisão foi tomada com base em critérios técnicos e reforçada por um painel técnico realizado em setembro com especialistas em neurologia, neurocirurgia e representantes do Conselho Federal de Medicina, cujos participantes desaconselharam a ampliação do uso compassivo devido a incertezas sobre a segurança.

O laboratório Cristália manifestou apoio integral à atuação da Anvisa e à diretoria da agência. A empresa informou ter enviado um relatório para tentar comprovar que os óbitos não teriam relação com a substância, embora a agência reguladoraponte a falta de dados catalogados e de acompanhamento sistemático dos pacientes tratados por uso compassivo como fatores de risco.

Atualmente, a segurança e a eficácia da polilaminina ainda não possuem comprovação científica definitiva. Enquanto o debate sobre o acesso compassivo continua, os procedimentos para o início do estudo clínico de fase 1 avançam no Hospital das Clínicas de São Paulo, onde voluntários que preenchem os critérios rigorosos da pesquisa deverão receber a aplicação da substância sob monitoramento científico.

Fontes consultadas

Leia também