Estudo aponta três milhões de mortes por calor extremo entre 2016 e 2023
Relatório internacional publicado pela revista The Lancet defende que as mudanças climáticas sejam tratadas como uma emergência sanitária global.
As mudanças climáticas provocaram cerca de três milhões de mortes relacionadas ao calor em todo o mundo entre 2016 e 2023, período que marcou a entrada em vigor do Acordo de Paris. O dado faz parte da décima edição do relatório da Lancet Countdown, divulgado nesta quarta-feira e elaborado por 146 pesquisadores de 30 países, que aponta que os danos à saúde decorrentes do aquecimento global estão avançando mais rápido do que a capacidade de resposta da comunidade internacional.
A diretora-executiva do Lancet Countdown, Marina Romanello, destacou durante a apresentação do documento que os efeitos nocivos do clima na saúde pública estão se acelerando. Os autores do relatório defendem que as autoridades formalizem as mudanças climáticas como uma emergência sanitária mundial, permitindo a criação de um mecanismo de intervenção de emergência semelhante ao adotado pela Organização Mundial da Saúde em casos de pandemia, com o objetivo de estabelecer uma resposta coordenada de longo prazo.
Somente no ano de 2023, considerado o mais quente da série histórica avaliada, as altas temperaturas estiveram associadas a um recorde estimado de 710 mil óbitos globais, superando o número de mortes causadas por malária ou HIV no mesmo período. O professor Ollie Jay, da Universidade de Sydney, explicou que, embora o calor intenso ocorra naturalmente, a frequência e a intensidade desses episódios são amplificadas pelas ações humanas, o que resulta em um aumento expressivo no número de fatalidades.
O impacto do aquecimento global também recai sobre a economia mundial, tendo reduzido a produtividade dos trabalhadores nos últimos anos com perdas anuais estimadas em cerca de um trilhão de dólares. As regiões mais atingidas por essa queda na capacidade produtiva foram o Sudeste Asiático e a África, afetando principalmente setores que exigem esforço físico ao ar livre, como a agricultura e a construção civil.
Apesar dos cenários alarmantes, o estudo aponta avanços reais desde 2016. Pelo menos 56 dos 194 países membros da OMS adaptaram seus sistemas de saúde e implementaram alertas antecipados para eventos extremos. Além disso, os investimentos globais em energias limpas alcançaram 2,1 trilhões de dólares, superando o montante destinado aos combustíveis fósseis.
Contudo, a dependência energética global continua fortemente atrelada aos combustíveis fósseis, que ainda representam 80% da matriz energética mundial e geram uma poluição atmosférica responsável por cerca de 2,73 milhões de mortes anualmente. Por outro lado, nos 77 países onde a poluição ligada a essas fontes diminuiu desde 2016, cerca de 323 mil mortes foram evitadas.
O relatório também chama a atenção para a desigualdade no financiamento de pesquisas médicas voltadas para o clima. Embora os recursos tenham crescido sete vezes, 84% dos 316 milhões de dólares liberados em 2024 foram direcionados a pesquisadores em países ricos, deixando desamparadas as nações em desenvolvimento que sofrem de maneira mais intensa com as ameaças climáticas.
Fontes consultadas
- Estudo alerta para 3 milhões de mortes por calor entre 2016 e 2023 brasilemfolhas.com.br
- Calor causa mais de 500 mil mortes por ano em todo o mundo, diz novo estudo saude.abril.com.br
- Mudanças climáticas aceleram mortes por calor e ameaçam a saúde global correiobraziliense.com.br
- Estudo diz que mudanças climáticas devem ser declaradas 'emergência global de saúde' oglobo.globo.com