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Política

Governo usou Itamaraty para defender cloroquina na pandemia

Documentos revelam que a diplomacia brasileira foi acionada em 2020 para rebater críticas internacionais e justificar a adoção do medicamento contra a covid-19.

Por 2 min de leitura

Governo usou Itamaraty para defender cloroquina na pandemia
Governo usou Itamaraty para defender cloroquina na pandemia

O governo brasileiro utilizou o Itamaraty em junho de 2020 para defender a hidroxicloroquina como tratamento contra a covid-19, em um momento em que autoridades sanitárias internacionais, cientistas e o próprio governo dos Estados Unidos caminhavam para suspender o uso do remédio devido à falta de evidências de eficácia e ao aumento de riscos.

A correspondência diplomática, tornada pública por meio de acervos de documentos abertos, foi enviada pelo representante do Brasil em Washington, Nestor Forster, ao deputado norte-americano Eliot Engel. O parlamentar democrata havia criticado publicamente a doação de dois milhões de comprimidos de cloroquina feita pelos Estados Unidos ao Brasil.

No telegrama enviado em 4 de junho de 2020, o diplomata brasileiro argumentou que a inclusão do medicamento nos protocolos do Ministério da Saúde baseava-se em pesquisas e dados empíricos após uma avaliação cuidadosa. Segundo a defesa oficial apresentada na época, a medida pretendia garantir a disponibilidade da substância no sistema público de saúde.

Além disso, o representante do Brasil questionou a confiabilidade de estudos internacionais divulgados sem rigor científico, citando publicações utilizadas pela Organização Mundial da Saúde para interromper temporariamente pesquisas com o antimalárico.

Apesar dos argumentos diplomáticos, o cenário regulatório internacional mudou drasticamente poucas semanas após a troca de correspondências. Em 15 de junho de 2020, a agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA, revogou a autorização de uso emergencial para a cloroquina e a hidroxicloroquina em pacientes hospitalizados.

A decisão da FDA fundamentou-se na constatação de que os fármacos não demonstravam benefícios terapêuticos e apresentavam um aumento expressivo em relatos de eventos adversos, incluindo óbitos. Dois dias depois, a Organização Mundial da Saúde também interrompeu os testes clínicos com o medicamento por falta de redução na mortalidade.

Mesmo diante das suspensões e da revisão de diretrizes científicas globais, a distribuição do remédio continuou a integrar os relatórios oficiais do governo brasileiro. Uma circular enviada pelo Itamaraty aos postos no exterior em 26 de junho de 2020 ainda listava milhões de comprimidos de cloroquina distribuídos como parte das ações de enfrentamento à pandemia.

Fontes consultadas

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