Livro de agente da PF detalha bastidores dos 580 dias de prisão de Lula em Curitiba
Publicação escrita por Jorge Chastalo Filho aborda a rotina na carceragem, a preparação da segurança e episódios marcantes do período em que o atual presidente esteve detido.
O agente da Polícia Federal Jorge Chastalo Filho lança nesta terça-feira a obra "Banho de Sol — os 580 dias da prisão de Lula", publicada pela WMF Martins Fontes. O livro, estruturado em formato de diário e com 592 páginas, relata os bastidores do período em que o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva permaneceu preso na superintendência da corporação em Curitiba, entre abril de 2018 e novembro de 2019.
Nos capítulos iniciais, a obra descreve o trajeto inicial de helicóptero entre o Aeroporto Afonso Penna, em São José dos Pinhais, e a sede da Polícia Federal na capital paranaense. Durante o voo de quinze minutos, tripulantes de outras aeronaves invadiram a frequência de rádio para proferir ofensas e declarações de hostilidade contra o petista, exigindo que o piloto ignorasse os ataques. O pouso também foi marcado por protestos e disparos de fogos de artifício na região.
Segundo o relato do policial, conhecido durante o período como o "Rodrigo Hilbert da Federal", a preparação para receber o preso durou três dias e envolveu quatro planejamentos distintos de segurança, embora a equipe policial não acreditasse inicialmente que a detenção de fato ocorreria. Ao chegar à superintendência, Lula apresentava fisionomia abatida e permaneceu em silêncio, gerando constrangimento na equipe de custódia.
O livro detalha as condições da cela, equipada com cama de solteiro, mesa metálica, cadeira e armário desgastado, além de janelas com grades e correntes que permitiam uma abertura de no máximo dez centímetros. Por precaução contra possíveis riscos à integridade do custodiado, o agente responsável optou por encomendar marmitas em um restaurante externo a partir do segundo dia, evitando a alimentação fornecida pela superintendência.
O primeiro banho de sol do petista ocorreu apenas no quarto dia de reclusão, em uma área externa cercada por paredes altas que o próprio detento comparou a uma jaula. A obra também menciona momentos específicos da convivência, como os encontros familiares, o impacto emocional gerado pelo falecimento de seu neto Arthur em 2019 e diálogos sobre política, figuras públicas e episódios jurídicos da Operação Lava Jato.
A prisão de Lula ocorreu após condenações em instâncias inferiores nos casos do triplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, validadas pelo Superior Tribunal de Justiça. A detenção foi encerrada em novembro de 2019, após o Supremo Tribunal Federal proibir a execução de penas antes do trânsito em julgado. Posteriormente, em 2021, o STF anulou as condenações e declarou a suspeição do juiz Sergio Moro, responsável pelos processos na 13ª Vara Federal de Curitiba.
O lançamento do livro foi programado para o período posterior às eleições presidenciais com o objetivo de evitar a associação da obra a campanhas políticas. A publicação passou por adaptações para o público geral, reduzindo jargões policiais e selecionando os registros cronológicos produzidos pelo agente ao longo dos 580 dias de cárcere.