Mercado financeiro projeta alta do dólar após reeleição de Lula
Especialistas preveem reprecificação de ativos, pressão sobre a Bolsa e juros futuros mais altos na abertura dos mercados.
O mercado financeiro brasileiro se prepara para uma reação de cautela e volatilidade na abertura dos negócios após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para um novo mandato. Analistas e agentes econômicos apontam que o resultado do pleito, que confirmou a continuidade do atual governo neste domingo (25), vai na contramão das expectativas recentes dos investidores, que apostavam em uma alternância de poder e em mudanças na política fiscal.
Na última sessão antes do segundo turno, realizada na sexta-feira (23), o dólar comercial havia recuado 0,90%, cotado a R$ 4,9930, enquanto o Ibovespa subiu 0,47%, fechando aos 205.083 pontos. No entanto, o cenário mudou drasticamente no exterior logo após o anúncio do resultado eleitoral. O fundo EWZ, um ETF que acompanha ações brasileiras negociadas no exterior, desabava 19% no after-hours de domingo.
Especialistas consultados pelo mercado avaliam que a reversão parcial do rali recente é natural no curto prazo. Segundo Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos, essa virada contraria o que vinha sendo precificado e deve pressionar a Bolsa, além de impulsionar a cotação do dólar e elevar os juros futuros. Para ele, a intensidade dessa correção dependerá dos primeiros sinais emitidos pela nova administração, especialmente a escolha do futuro ministro da Fazenda e o compromisso efetivo com o arcabouço fiscal.
O economista e CEO da Veedha Investimentos, Rodrigo Marcatti, também projeta um cenário de maior pressão inflacionária e aumento do risco fiscal. Na avaliação de Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, o principal receio do mercado reside na trajetória de crescimento contínuo da dívida pública, que atualmente soma R$ 11,1 trilhões, equivalente a 82,9% do PIB, sem medidas claras e suficientes para conter os gastos. Lima destaca que os investidores terão de reavaliar suas projeções, sobretudo em um contexto de Congresso nacional onde o governo não dispõe de maioria própria.
No ambiente corporativo, a expectativa para o pregão aponta para desempenhos distintos entre os setores. Ações de bancos estatais e empresas ligadas ao consumo interno, como varejistas, construtoras e companhias altamente endividadas, devem sofrer maior impacto negativo devido à perspectiva de custos de capital elevados. Por outro lado, empresas exportadoras e aquelas com receitas atreladas à moeda norte-americana, a exemplo de companhias dos setores de agronegócio e mineração, tendem a apresentar maior resistência, impulsionadas pela valorização do dólar.
O cenário macroeconômico brasileiro é marcado por um ritmo de crescimento moderado, com avanço de 0,5% do PIB no segundo trimestre de 2026, além de patamares elevados de endividamento familiar e empresarial registrados no mês de agosto. Em contrapartida, o plano oficial de governo apresentado para o período prevê a manutenção do arcabouço fiscal, o estímulo aos investimentos em infraestrutura e a busca por uma redução sustentada da taxa de juros com controle da inflação.