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Brasil

Pesquisa sobre cicloentregadores vence prêmio na USP

Estudo etnográfico analisa a rotina, os desafios e a construção de dignidade de jovens entregadores de bicicleta em São Paulo.

Por 3 min de leitura

Pesquisa sobre cicloentregadores vence prêmio na USP
Pesquisa sobre cicloentregadores vence prêmio na USP

A dissertação de mestrado intitulada Juventude, gênero e processo de trabalho: a experiência dos cicloentregadores com as plataformas de delivery conquistou o primeiro lugar no Prêmio Sérgio Miceli de 2025, concedido pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). O trabalho é de autoria de Douglas Alexandre Santos Silva, pesquisador e doutorando na instituição, que se dedicou a investigar a realidade desses trabalhadores urbanos entre 2022 e 2024.

Natural de Feira de Santana, na Bahia, o pesquisador migrou para São Paulo na infância e enfrentou diversas vulnerabilidades sociais ao longo da juventude. Aprovado aos 17 anos no curso de Ciências Sociais da USP após passar por escola pública e cursinho popular, Douglas baseou sua pesquisa não apenas em observações teóricas, mas na vivência prática: durante seis meses, ele atuou como cicloentregador pelas ruas da capital paulista, carregando a tradicional mochila de entregas nas costas.

A investigação etnográfica contraria a visão simplista que reduz esses trabalhadores estritamente à condição de vítimas desamparadas. Segundo o autor, os jovens do pedal constroem uma forma própria de dignidade fundamentada na coragem e na disposição física, elementos que as plataformas de entrega conseguem converter em lucro de maneira sistêmica.

Para o pesquisador, esse mecanismo empresarial dialoga com práticas históricas de exploração da informalidade e da desproteção observadas no setor de vendas diretas de cosméticos, que por décadas estruturou suas operações sobre o trabalho feminino. Estamos vivenciando o espraiamento de uma lógica de informalidade e desproteção que foi inaugurada em cima do trabalho das mulheres, observa o sociólogo.

Atualmente, em sua fase de doutorado com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o pesquisador aprofunda os estudos sobre o impacto físico dessa rotina exaustiva. Em sua nova etapa acadêmica, ele examina como o corpo desses jovens lida com o esforço diário de subir ladeiras sem remuneração adicional, recorrendo frequentemente a analgésicos e emplastros para suportar o ritmo de trabalho.

O percurso de Douglas até a universidade pública também evidencia as barreiras enfrentadas por estudantes periféricos. Criado por uma mãe solo que exercia múltiplas ocupações no comércio para sustentar a família após a morte precoce do pai, ele relatou o choque cultural e financeiro ao ingressar em uma instituição de ensino superior predominantemente frequentada pelas elites, onde enfrentou a escassez de recursos básicos para socialização e permanência estudantil.

A dissertação premiada consolida-se assim como um importante retrato contemporâneo das metrópoles brasileiras, dando visibilidade às dinâmicas de gênero, classe e trabalho que moldam o cotidiano dos cicloentregadores nas grandes cidades.

Fontes consultadas

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