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Brasil

Sobrevivente relembra o maior acidente radioativo do Brasil em Goiânia

Odesson Ferreira detalhou à imprensa os impactos do desespero e da contaminação por césio-137 ocorridos em setembro de 1987.

Por 3 min de leitura

Sobrevivente relembra o maior acidente radioativo do Brasil em Goiânia
Sobrevivente relembra o maior acidente radioativo do Brasil em Goiânia

Em setembro de 1987, a cidade de Goiânia (GO) tornou-se palco do maior acidente radiológico da história do Brasil, desencadeado após a abertura de uma cápsula contendo césio-137 em um ferro-velho local. O objeto havia sido encontrado em uma clínica abandonada por catadores de material reciclável e vendido ao proprietário do estabelecimento, Devair Alves Ferreira, que ficou fascinado com o brilho azul emitido pelos cristais.

O irmão de Devair, Odesson Alves Ferreira, chegou a sugerir que o objeto fosse descartado, mas o material foi manipulado por diversas pessoas, incluindo familiares e amigos que visitavam o local. Fragmentos do pó radioativo foram levados para residências, como no caso de Ivo Ferreira, que levou parte do material para casa onde morava com sua filha, Leide das Neves Ferreira, de apenas seis anos.

Semanas após a exposição, dezenas de pessoas começaram a apresentar sintomas de uma doença misteriosa. Diante da suspeita levantada por um amigo da família, a esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, levou o cilindro até a Vigilância Sanitária. O local foi acionado e o físico nuclear Walter Mendes Ferreira utilizou um detector de radiação para examinar o aparelho, constatando níveis extremamente elevados que confirmaram o perigo e permitiram o acionamento urgente da Comissão Nacional de Energia Nuclear.

A tragédia resultou na morte de quatro pessoas nas primeiras semanas: Maria Gabriela, os dois funcionários do ferro-velho e a pequena Leide das Neves, que ingeriu um ovo após brincar com fragmentos do material radioativo e contaminar suas mãos. Outros envolvidos faleceram anos mais tarde, como Devair em 1994 e Ivo em 2003.

Para conter os danos, o governo convocou mais de 100 mil moradores para triagem e testes no Estádio Olímpico Pedro Ludovico Teixeira. Os afetados passaram por processos rigorosos de descontaminação com líquidos e escovas, enquanto residências e estabelecimentos comerciais foram isolados, demolidos ou passados por rigorosas limpezas devido à contaminação persistente.

Os sobreviventes enfrentaram forte estigma social e discriminação por parte da comunidade. Odesson Ferreira relatou que vizinhos e conhecidos passaram a evitá-los, recusando atendimento, atirando copos no lixo e tentando impedir a mudança da família por meio de abaixo-assinados na vizinhança.

Anos após o desastre, Odesson tornou-se presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, dedicando-se a defender os direitos dos sobreviventes e a conscientizar a população para que tragédias semelhantes nunca mais voltem a acontecer. Recentemente, o físico Walter Mendes Ferreira, responsável pela identificação inicial do material, recebeu o título de Cidadão Goiano em sessão solene da Assembleia Legislativa.

Fontes consultadas

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