Lula enfrenta desafios externos com Donald Trump e Javier Milei no quarto mandato
Governo brasileiro aposta no pragmatismo diplomático para conter atritos regionais, gerir tensões com Washington e ampliar a presença do país no cenário internacional.
A política externa do Brasil para o quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá de lidar com os desafios impostos pelas administrações de Donald Trump, nos Estados Unidos, e Javier Milei, na Argentina, mantendo simultaneamente uma estratégia de expansão de alianças e mercados na Ásia e na América do Sul. O cenário geopolítico ganhou novos contornos recentes após a saída do senador Flávio Bolsonaro do Brasil em direção aos Estados Unidos, com passagem pela Argentina, episódio que gerou repercussão internacional e movimentou os bastidores da diplomacia.
O governo brasileiro avalia que a relação com os Estados Unidos exigirá cautela, especialmente após o presidente americano questionar sem provas o resultado da eleição presidencial brasileira e conceder visto humanitário a Flávio Bolsonaro, que contestou o pleito a partir de território norte-americano. Apesar disso, os canais de diálogo permanecem abertos e os dois governos mantêm conversas sobre tarifas comerciais e cooperação no combate ao crime organizado, embora o Brasil tenha recusado integrar a iniciativa de segurança conhecida como Escudo das Américas por considerá-la carente de um projeto regional amplo.
Um dos palcos centrais dessa relação será a Cúpula do G20, marcada para dezembro em Miami, onde Trump atuará como anfitrião. O encontro promete tensões diplomáticas em meio ao imbróglio envolvendo o senador brasileiro e as divergências acumuladas, como as tarifas aplicadas à economia brasileira e sanções anteriores. Analistas apontam que a cúpula também servirá para os Estados Unidos tentarem centralizar esforços de paz global, o que adiciona complexidade à presença do governo brasileiro no evento.
No âmbito regional, a relação com a Argentina de Javier Milei segue marcada por atritos políticos e ataques públicos direcionados a Lula. A passagem de Flávio Bolsonaro pela fronteira argentina rumo aos Estados Unidos gerou cobranças de parlamentares locais ao governo de Buenos Aires sobre uma suposta facilitação da viagem. Apesar da ausência temporária de um embaixador brasileiro na capital argentina e da exigência de interlocutores para que Milei abandone ataques pessoais antes de uma retomada plena do diálogo presidencial, os acordos comerciais e o funcionamento do Mercosul continuam preservados.
A diplomacia brasileira também aposta no pragmatismo com outros vizinhos sul-americanos, como Peru, Bolívia e Chile. Interlocutores do governo destacam que, apesar do alinhamento formal desses países com Washington, há dúvidas sobre o real alcance da influência de Trump na região e um claro interesse em manter cooperações pragmáticas com o Brasil, o maior país da América do Sul, principalmente no combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional.
Para fortalecer essa atuação conjunta, o governo brasileiro planeja expandir estruturas operacionais e de inteligência com o apoio da Polícia Federal, incluindo centros de cooperação na Amazônia, no Rio de Janeiro e a possível criação de uma nova base em Buenos Aires. A avaliação oficial é de que as divergências ideológicas entre os governos da região não devem comprometer os esforços integrados de segurança pública e a articulação com os estados.
Em paralelo aos atritos nas Américas, a estratégia para o quarto mandato prevê a consolidação da aproximação com os países asiáticos. A meta é abrir novos mercados para produtos nacionais, diversificar as relações comerciais e reduzir a dependência exclusiva de potências como a China, mantendo, contudo, a prioridade histórica nas trocas comerciais com os chineses e participando ativamente de fóruns multilaterais de destaque nos próximos meses.