Saúde mental infantil exige atenção redobrada de pais e educadores
Estudo aponta que milhões de jovens brasileiros convivem com transtornos mentais, sendo a ansiedade uma das condições de maior impacto na infância e juventude.
A saúde mental de crianças e adolescentes brasileiros tem se tornado uma preocupação crescente para especialistas e famílias. De acordo com um estudo liderado pelo psiquiatra Christian Kieling, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e publicado na revista científica The Lancet, estima-se que 15,6 milhões de jovens no país convivam com ao menos um transtorno mental. Entre as condições identificadas, a ansiedade se destaca como uma das mais impactantes, persistindo em muitos casos até o início da vida adulta.
O reflexo desse cenário já é observado nos serviços de saúde. Dados referentes ao estado de São Paulo indicam que as internações de crianças por causas relacionadas a transtornos mentais praticamente dobraram nos últimos cinco anos. Diante desses números, especialistas reforçam a necessidade de um olhar mais atento ao comportamento infantil, visto que o sofrimento emocional nem sempre se manifesta de forma clara ou verbalizada.
Luciana Brites, especialista em distúrbios do desenvolvimento, destaca que crianças de sete ou oito anos frequentemente possuem dificuldade em expressar seus sentimentos. Sinais como dores de barriga recorrentes antes de ir à escola, dores de cabeça, resistência para sair de casa, dificuldades de aprendizagem ou uma aparente desatenção podem ser indicativos de que algo não vai bem. No entanto, a especialista ressalta que tais comportamentos, isoladamente, não confirmam um diagnóstico, sendo indispensável a avaliação por profissionais capacitados.
Nesse contexto, a colaboração entre família e escola é fundamental. Professores e responsáveis, por conviverem diariamente com as crianças, estão em uma posição privilegiada para identificar mudanças persistentes no comportamento. O papel desses adultos não é realizar diagnósticos, mas sim observar sinais de alerta e encaminhar a criança para uma avaliação especializada, garantindo que o suporte adequado seja oferecido o mais cedo possível.
A estruturação de uma rotina organizada e o fortalecimento de vínculos afetivos são apontados como pilares essenciais para o bem-estar emocional dos pequenos. Além disso, é necessário considerar a saúde mental dos próprios profissionais da educação, que lidam diariamente com as demandas emocionais dos alunos. A criação de um ambiente escolar acolhedor e preparado é um passo importante para mitigar o sofrimento emocional infantil.
É importante ressaltar que nem todo comportamento atípico deve ser rotulado como transtorno. O objetivo de discutir o tema é reconhecer a vulnerabilidade emocional das crianças e oferecer um suporte que respeite suas particularidades. A intervenção precoce, quando baseada em observação cuidadosa e acompanhamento profissional, amplia significativamente as chances de um desenvolvimento saudável, permitindo que a criança lide melhor com as pressões do cotidiano.