Crise no Ueno Bank afeta brasileiros e derruba presidente do Paraguai
Intervenção em instituição financeira digital gera bloqueio de contas, investigações criminais e renúncia do presidente paraguaio Santiago Peña.
Brasileiros que residem, estudam ou mantêm atividades comerciais no Paraguai enfrentam dificuldades financeiras após o colapso e a intervenção do Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras digitais do país. O bloqueio das operações, determinado pelo Banco Central do Paraguai (BCP) em novembro de 2026, deixou milhões de correntistas temporariamente sem acesso a saques e transferências, gerando forte repercussão na região de fronteira e culminando na renúncia do presidente paraguaio Santiago Peña nesta quinta-feira (5).
A crise na instituição teve início quando o Banco Central identificou que o índice de solvência do banco caiu para menos da metade do patamar mínimo exigido pela legislação local. O Ueno Bank acumulou um crescimento acelerado nos últimos anos após absorver a Financeira El Comercio e incorporar o Visión Banco em 2024, alcançando aproximadamente 2,9 milhões de clientes. Contudo, auditorias e investigações do Ministério Público paraguaio revelaram empréstimos sob suspeita concedidos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador, o que levou à acusação formal de 27 pessoas e à detenção de oito dirigentes por crimes financeiros.
O impacto do colapso financeiro estende-se a brasileiros que utilizavam os serviços do banco paraguaio, especialmente estudantes dependentes de remessas familiares e pequenos comerciantes da faixa de fronteira. Conforme as regras vigentes, os valores depositados no Ueno Bank seguem estritamente a legislação paraguaia e o Fundo de Garantia de Depósitos local, uma vez que o Fundo de Garantia de Créditos (FGC) brasileiro não possui cobertura sobre instituições estrangeiras.
Para tentar amenizar os prejuízos aos correntistas, o Banco Central do Paraguai iniciou o processo de liberação de recursos para correntistas que possuem depósitos de até 10 milhões de guaranis, ausência de dívidas na instituição e contas ativas em outros bancos. O Fundo de Garantia de Depósitos do país protege o equivalente a até 228,3 milhões de guaranis por depositante, montante que cobre integralmente a grande maioria dos clientes, embora aqueles com saldos superiores aguardem a recuperação dos ativos do banco.
A instabilidade financeira rapidamente tomou proporções políticas devido à concentração expressiva de recursos públicos na instituição, que gerenciava montantes bilionários de órgãos estatais e do fundo de pensão de aposentadorias. O envolvimento político ganhou força com questionamentos sobre ex-acionistas do grupo e a atuação de autoridades monetárias. A oposição protocolou um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana, apontando conflito de interesses.
A pressão sobre o governo aumentou drasticamente após Horacio Cartes, ex-presidente e líder do Partido Colorado, declarar apoio ao afastamento de Peña. Diante da ameaça iminente de destituição no Congresso, o chefe de Executivo paraguaio optou por renunciar ao cargo em pronunciamento público, afirmando buscar a preservação da estabilidade democrática e da paz social no país.
Autoridades monetárias reforçam que a situação restringe-se exclusivamente ao Ueno Bank e não representa uma crise generalizada no sistema financeiro paraguaio. Enquanto os trâmites de resolução e os cronogramas de ressarcimento avançam, órgãos oficiais orientam os correntistas a acompanharem os comunicados institucionais e a ignorarem tentativas de golpe que prometem a liberação de valores mediante pagamentos antecipados.