Incertezas sobre IA após eleições nos EUA derrubam bolsas globais
O temor de regras mais rígidas para o setor tecnológico americano gerou forte aversão ao risco, impactando os mercados internacionais e o Ibovespa.
As bolsas de valores globais registraram fortes perdas, puxadas pela derrocada de Wall Street, após os resultados das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos acenderem alertas sobre o futuro da inteligência artificial. O movimento de aversão ao risco contaminou o mercado brasileiro, fazendo com que o Ibovespa encerrasse o pregão em queda de 0,8%, cotado aos 166.191 pontos.
O principal catalisador do pessimismo externo foi o avanço dos democratas no Congresso americano e em estados estratégicos. Investidores passaram a precificar regras mais rígidas, exigências de energia limpa e o corte de incentivos fiscais para a construção e manutenção de centros de dados voltados à inteligência artificial. A perspectiva de custos elevados e de desaceleração nos investimentos das grandes empresas de tecnologia provocou uma onda massiva de vendas.
Nos Estados Unidos, o índice Nasdaq despencou mais de 5%, entrando em território de correção, enquanto o S&P 500 e o Dow Jones também fecharam em baixa acentuada. Gigantes de chips e semicondutores lideraram as perdas, arrastando o setor de tecnologia para o centro de uma crise de liquidez e cautela generalizada que se estendeu rapidamente para os mercados emergentes.
Segundo especialistas do setor financeiro, a intensidade da retração nos Estados Unidos transformou o que seria uma correção comum em um alerta de pânico generalizado. "Quando a bolsa americana tem uma queda de tamanha relevância, passa de um nível de queda simples para um nível de alerta de pânico, criando aversão ao risco e contaminando os mercados como um todo, inclusive o Brasil", aponta o gestor de investimentos Marcelo Cabral.
No cenário doméstico, além do ambiente externo desfavorável, a cautela dos investidores também foi alimentada por incertezas fiscais. Reuniões em Brasília envolvendo o governo e a equipe econômica mantiveram o mercado em estado de alerta devido à resistência na discussão de cortes de despesas obrigatórias. A desconfiança quanto ao ajuste das contas públicas pressionou o dólar comercial, que fechou em alta de cerca de 0,7%, negociado próximo de R$ 5,49.
Apesar da turbulência no câmbio e na bolsa, os juros futuros recuaram no mercado brasileiro após o Banco Central decidir manter a taxa Selic em 13,75% ao ano por unanimidade. O tom do comunicado do Comitê de Política Monetária foi interpretado pelo mercado como uma pausa prudente, indicando que a economia já apresenta sinais claros de desaceleração frente ao patamar contracionista dos juros.
Na ponta corporativa brasileira, o pregão foi marcado por reações distintas à temporada de balanços trimestrais e à volatilidade das commodities. Enquanto empresas varejistas e de consumo registraram ganhos expressivos impulsionadas por margens positivas, companhias de construção e exportadoras sofreram fortes baixas, refletindo o pessimismo com o custo de capital e o cenário macroeconômico global.