Operação da PF desarticula esquema de internet do tráfico no RJ
Ação policial cumpre dezenas de mandados e aponta que exploração de telecomunicações financia facção criminosa no Rio de Janeiro.
A Polícia Federal deflagrou nesta segunda-feira a Operação Backbone para desarticular um esquema de monopólio e exploração ilegal de serviços de internet imposto por uma facção criminosa em complexos de favelas do Rio de Janeiro. A ação resultou na prisão de pelo menos 20 pessoas, incluindo familiares de lideranças do grupo, e mirou uma rede de provedores clandestinos utilizada para lavar dinheiro e financiar o crime organizado.
De acordo com as investigações, criminosos armados atuam de maneira sistemática cortando cabos e incendiando caixas de distribuição de operadoras regulares e concorrentes. O objetivo da violência é impedir o funcionamento dos serviços tradicionais e obrigar moradores e comerciantes locais a contratarem exclusivamente os provedores autorizados pela facção.
O esquema gerou uma nova e expressiva fonte de receita para o grupo criminoso. Registros contábeis apreendidos pela Polícia Federal indicam que, em apenas um mês, a cobrança pelo serviço de internet representou mais de 40% de toda a arrecadação da facção no Complexo da Penha, demonstrando a centralidade econômica dessa atividade ilícita.
Moradores da região afetada relatam um profundo sentimento de isolamento e vulnerabilidade diante da situação. Um morador, que preferiu não ter a identidade divulgada por motivos de segurança, resumiu a gravidade do cenário: O sentimento que eu tenho com relação a tudo isso é de abandono. Abandono do poder público. Sentimento de humilhação, porque não temos serviços básicos que toda a população deveria ter, afirmou.
A Operação Backbone mobilizou agentes para o cumprimento de 23 mandados de prisão preventiva e 24 mandados de busca e apreensão em diversos municípios fluminenses, como Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé. A Justiça também determinou o bloqueio de bens e valores de até R$ 558 milhões, atingindo dezenas de pessoas físicas e jurídicas, incluindo empresas de fachada, produtoras de eventos e firmas de contabilidade.
As investigações apontam que o comando das atividades empresariais ilegais nos territórios é mantido por lideranças encarceradas em conjunto com familiares. Os lucros obtidos com as tarifas cobradas dos provedores e com o controle de territórios eram dissimulados por meio de investimentos em imóveis de alto padrão pagos em dinheiro vivo, criptoativos e empresas de publicidade.
Como desdobramento da operação, a Agência Nacional de Telecomunicações será acionada para cassar as outorgas e interditar os provedores envolvidos, com a implementação de medidas para garantir que os moradores não fiquem totalmente desassistidos. Os investigados poderão responder por crimes como domínio social estruturado, extorsão majorada, atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública e lavagem de dinheiro.