Policial militar que matou mulher em abordagem em São Paulo é solto pela Justiça
Agente havia sido preso em flagrante após delegado apontar uso desproporcional da força durante ocorrência com mulher armada com faca.
O soldado da Polícia Militar André Coelho Maximo da Costa, preso em flagrante na última quinta-feira (15) após balear e matar Camila Pereira da Silva, de 32 anos, na zona oeste de São Paulo, foi solto pela Justiça após audiência de custódia realizada nesta sexta-feira (16). O agente, que estava detido no presídio Romão Gomes, responderá ao processo em liberdade, mas deverá cumprir medidas cautelares impostas pelo juiz.
Entre as determinações judiciais, o policial foi suspenso de suas atividades operacionais e de qualquer função que exija o porte de arma de fogo, sendo remanejado para tarefas administrativas. Além disso, ele deve manter seu endereço atualizado e está proibido de sair da cidade por períodos superiores a oito dias sem autorização prévia. O descumprimento de qualquer uma dessas medidas pode resultar em um novo decreto de prisão.
O caso ocorreu no Parque São Domingos, quando a equipe da Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas (Rocam) foi acionada para atender uma ocorrência envolvendo a vítima, que portava uma faca. Imagens de câmeras de segurança registraram o momento em que Camila caminha em direção aos policiais e é atingida por um disparo efetuado pelo soldado Maximo. O socorro chegou a ser acionado, mas a morte foi confirmada no local.
Em seu relatório, o delegado João Pedro Murgolo, do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), classificou a ação como desproporcional. A autoridade policial apontou seis pontos críticos na conduta da equipe: a ausência de agressão iminente, a falta de uso de técnicas de contenção progressiva, a existência de espaço para recuo, a superioridade numérica dos policiais, o disparo em região vital e a falta de cautela específica para lidar com pessoas em possível surto psicótico.
Segundo o delegado, Camila não realizou movimentos bruscos de ataque ou gestos ofensivos que justificassem o uso de força letal. O boletim de ocorrência destaca que, mesmo com a presença de três policiais treinados e equipados, a guarnição optou pelo disparo em vez de utilizar recursos de menor potencial ofensivo, como dispositivos elétricos ou técnicas de imobilização. Durante o interrogatório, o policial alegou não possuir habilitação para o uso de taser.
A defesa do soldado, representada pelo advogado Mauro Ribas, contestou a prisão em flagrante, classificando-a como uma medida de "cunho político e eleitoreiro". Em nota, o defensor afirmou que o policial seguiu os procedimentos operacionais padrão e que o disparo foi a única alternativa encontrada após o esgotamento das possibilidades de recuo. A defesa ainda mencionou que a prisão gerou instabilidade e sensação de desamparo entre os membros da corporação.
O episódio ocorre em um cenário de crescente debate sobre o preparo da Polícia Militar paulista para lidar com pessoas em crise emocional ou transtornos mentais. Em um intervalo de apenas uma semana, outras duas ocorrências envolvendo PMs resultaram em mortes, com um total de 69 disparos efetuados contra dois homens. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, admitiu publicamente a necessidade de uma revisão nos protocolos de abordagem da corporação.
A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo reafirmou que não tolera desvios de conduta e que o caso segue sob investigação rigorosa por meio de um Inquérito Policial Militar e pela Polícia Civil. A arma utilizada pelo soldado foi apreendida para perícia técnica, enquanto as circunstâncias da morte de Camila e dos outros dois homens seguem sendo apuradas pelas autoridades competentes.