Mensagens revelam alerta de mecânico da Voepass antes de queda em SP
Documentação obtida após a quebra de sigilo judicial expõe conversas sobre falhas de manutenção e reforça a tese do Ministério Público Federal sobre o acidente ocorrido em 2024.
Vinte e um meses antes da queda de um avião da Voepass que resultou na morte de 62 pessoas em Vinhedo, no interior paulista, um mecânico da companhia aérea enviou uma mensagem a uma comissária de bordo na qual afirmava que as aeronaves da empresa só não caíam porque contavam com a proteção divina. A conversa foi localizada por uma perícia realizada no celular da tripulante Rubia Silva de Lima, uma das vítimas da tragédia ocorrida em 9 de agosto de 2024.
O conteúdo faz parte de um processo judicial de mais de 81 mil páginas que teve o sigilo levantado pela Justiça Federal nesta semana. Para o Ministério Público Federal (MPF), o diálogo corrobora a tese de que a queda do modelo ATR 72-500 foi um desfecho previsível decorrente de um processo continuado de omissões deliberadas na manutenção da frota.
Ao todo, doze pessoas tornaram-se rés no processo, respondendo pelos crimes de atentado contra a segurança do transporte aéreo e sinistro. Entre os denunciados estão integrantes da alta administração da empresa, diretores, gerentes, um piloto-chefe e o próprio mecânico autor das mensagens, Alex de Souza Leandro, além de funcionários apontados como responsáveis diretos pelo voo e pela liberação de aeronaves.
O relatório do Núcleo de Inteligência Policial encaminhado à Polícia Federal destaca que o material extraído dos dispositivos recuperados no local do acidente demonstra que o conhecimento sobre a suposta cultura organizacional de descaso com a manutenção se estendia por praticamente todos os níveis da companhia aérea.
Além do registro de 2022, a perícia encontrou diversas outras conversas entre funcionários relatando problemas técnicos recorrentes e questionando as condições operacionais dos aviões. Em junho de 2024, semanas antes da tragédia, uma funcionária relatou ter presenciado um voo realizado sob calor insuportável devido a uma falha no sistema de ar-condicionado, criticando a insistência da empresa em manter a operação.
Outros trechos detalham aeronaves operando com panes sucessivas e tripulantes manifestando indignação com a falta de suporte adequado durante as escalas. Em depoimento prestado durante as investigações, o mecânico Alex de Souza Leandro negou a prática ou a aceitação de procedimentos irregulares e afirmou que, embora houvesse pressão para agilizar os voos, jamais liberou aeronaves sem condições de aeronavegabilidade.
A defesa do ex-mecânico informou que irá se manifestar formalmente nos autos durante a fase de apresentação de defesa. Em nota oficial, a Voepass declarou que continuará colaborando com o Poder Judiciário e com as autoridades competentes, fornecendo os documentos solicitados e reforçando que manteve a segurança operacional como princípio fundamental ao longo de mais de três décadas de atuação na aviação brasileira.
O voo 2283 havia decolado de Cascavel, no Paraná, com destino ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, na Grande São Paulo, quando caiu em uma área residencial de Vinhedo. A tragédia vitimou 58 passageiros e quatro tripulantes, mobilizando equipes de resgate e órgãos de investigação para apurar as responsabilidades pelo acidente.